A HISTÓRIA REPETE-SE?

A HISTÓRIA REPETE-SE?

 A HISTÓRIA REPETE-SE? 

A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Mas talvez não seja menos vão esgotar-se em compreender o passado se nada se sabe do presente.

Marc Bloch, Apologia da História ou o Ofício de Historiador, Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2001

 

No dia 17 de julho de 2026, realizou-se o quinto encontro do nosso ciclo Poesia da Mangiare: A História repete-se? — uma conversa com a historiadora Maria Alice Samara e o jornalista, tradutor e escritor Marcello Sacco, moderada por Elísio Borges Maia.

No mês de maio, completaram-se 100 anos sobre o Golpe de Estado de 28 de Maio de 1926. Deu início a uma ditadura em Portugal que haveria de durar quase 48 anos. Também há aproximadamente um século (1925-1926), o Governo de Benito Mussolini aprovou um conjunto de "Leis de Defesa do Estado", conhecidas como Leis fascistíssimas, que institucionalizaram o processo de fascização do país, a que só o 25 Aprile 1945 poria termo. Partindo deste duplo centenário, conversámos sobre a forma como nasceram estas duas ditaduras, quais os fatores que mais contribuíram para a capitulação dos respetivos regimes parlamentares (republicano, no caso português; monárquico, no caso italiano).

Foi também uma oportunidade para olharmos e discutirmos o momento político presente nos dois países. Poderão os partidos históricos do sistema político português e o novo Presidente da República aprender com a experiência italiana? Que resultados têm produzido as principais abordagens às forças de extrema-direita — essencialmente, o cordão sanitário ou o mimetismo das suas ideias políticas? Enquadrámos os casos italiano e português no contexto europeu mais amplo e procurámos compreender quais têm sido as principais causas da ascensão de partidos e movimentos de direita radical em países como Espanha, França, Alemanha, Holanda, Inglaterra, Hungria, Polónia ou Suécia.

A conversa sobre estes dois temas com os nossos convidados suscitou, no final, um debate com a plateia que se prolongou por quase uma hora. Comparou-se o fascismo italiano, mais revolucionário e, pelo menos na aparência, mais projetado para o futuro, e o português, mais saudosista. Como assinalou Alice Samara, o homem novo de Salazar era, na verdade, um homem velho. 

 

Marcello Sacco lembrou que Itália tem funcionado como um laboratório, onde as coisas novas parecem prototipar-se para surgirem depois noutras paragens. Discutimos também o que podem fazer os cidadãos que não se reveem nos valores e ideias desses movimentos de direita radical nem pretendem viver em autocracias eleitorais, na expressão certeira do historiador italiano Steven Forti, como a Rússia de Putin ou a Hungria de Órban.  

 

Parlatório, Caxias, de Júlio Pomar (1947)Óleo sobre papel montado em aglomerado 54,6 x 89 cm. Coleção Museu do Neo-Realismo. Fotografia: © EGEAC, Atelier-Museu Júlio Pomar, António Jorge Silva. © Fundação Júlio Pomar/SPA.

Com apenas 21 anos, Júlio Pomar foi detido em Évora, por ser membro da direção do Movimento de Unidade Democrática Juvenil, e esteve preso quatro meses, no Aljube e em Caxias. O seu trabalho posterior refletiu essa dura experiência. A obra Parlatório evoca as visitas à prisão, sempre num contexto de forte vigilância. O Parlatório da Fortaleza de Peniche — atual Museu Nacional da Resistência e Liberdade —, onde se exibe uma reprodução daquela obra, é como uma cápsula desse tempo que importa não esquecerNem repetir.

 

Maria Alice Samara nasceu em Lisboa, em abril de 1974. Doutorada em História Institucional e Política Contemporânea pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, é investigadora do Instituto de História Contemporânea (IHC – NOVA FCSH). Tem trabalhado temas relacionados com a I República e mais recentemente, relativamente ao período do Estado Novo, dedicou-se a estudos sobre a Resistência, espaço e memória. É autora de vários livros.

Marcello Sacco nasceu em Lecce (Itália) e vive em Lisboa há cerca de 30 anos. É professor de Italiano, tradutor e jornalista. Atualmente colabora com a Agência Ansa e o diário Il Foglio, em Portugal já colaborou com o Diário de Notícias e a RTP. Tem várias publicações jornalísticas e académicas sobre política e cultura italiana, lusófona e ibérica. É autor de alguns livros de narrativa e do ensaio Salazar. Ascesa e caduta di un dittatore técnico (nova edição em 2025). Como tradutor publicou, em Itália, diversos autores portugueses e brasileiros, entre eles Raul Brandão, Agustina Bessa-Luís, José Gil e Almeida Faria.

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